Marcus Bruzzo discute na FLAP o que resta de humano no mundo das IAs

O que nos torna humanos diante das máquinas? O filósofo e comunicador Marcos Bruzzi foi à FLAP neste domingo (26/4) para ir além do debate técnico sobre inteligência artificial. Na mesa “Seremos dados”, ele propôs uma reflexão sobre ética, criatividade e o espaço que ainda resta ao humano em um mundo cada vez mais redefinido pelos algoritmos.

Bruzzi partiu do próprio título do seu livro para lançar uma provocação dupla: “Seremos dados significa duas coisas. A primeira é que seremos entregues. A segunda é que estamos nos tornando registros digitais.” Para ele, o que está em jogo não é apenas uma transformação tecnológica, mas algo mais profundo — uma cultura de gradual esvaziamento do corpo humano das relações. “As relações humanas vão se tornando cada vez menos mediadas pelo próprio corpo humano”, alertou. “Pela primeira vez na humanidade, nós abrimos mão da necessidade do corpo do outro.”

O autor de Seremos Dados e O universo dos sonhos técnicos argumentou que a grande questão da inteligência artificial não é tecnológica, mas filosófica, e que a literatura e as humanidades têm papel decisivo nesse debate. A conversa, mediada por Juliano Breda, tocou em pontos que raramente aparecem nas discussões sobre IA: a dimensão existencial da criatividade, o valor do erro humano e a diferença entre produzir conteúdo e produzir sentido.

Um dos argumentos mais provocadores da mesa foi a tese de que o ser humano não perde para a inteligência artificial porque ela seja extraordinária — mas porque fomos sistematicamente treinados para sermos máquinas mediocres. “Nós estamos metodicamente criando seres humanos guiados para trabalhar como máquinas, para viver como máquinas, e como máquinas nós vamos ser substituídos”, disse. Para Bruzzi, séculos de educação baseada em memorização e reprodução afastaram o ser humano das capacidades que são genuinamente suas — a criatividade orgânica, o pensamento crítico, a capacidade de se humanizar. “A inteligência é orgânica. Ela é um fenômeno da natureza. Todo o resto é metáfora.”

Nessa linha, ele também questionou a fetichização do livro como objeto. Para o filósofo, o livro é um suporte — um acidente histórico que permitiu o conhecimento cumulativo e foi um marco civilizatório, mas não é a única forma de saber. “O que importa são as ideias”, defendeu. E cobrar de alguém que memorize o conteúdo de livros inteiros é exigir que o ser humano concorra com o pendrive — uma batalha perdida de largada. A memória humana, lembrou, não registra: reconstrói.

Um dos momentos mais incisivos da mesa foi quando Bruzzi questionou a confiança crescente que as pessoas depositam nas ferramentas de inteligência artificial para decisões da própria vida. “Como vocês podem confiar que uma máquina dê a vocês uma indicação acerca do que fazer na vida? Uma máquina que não tem corpo, que não sente dor, que não sente medo de morrer, que nunca amou, que não sabe a dor de perder alguém.” Para ele, a relação que a sociedade está construindo com a IA é quase oracular — e isso é um sintoma preocupante. “As pessoas buscam opinião de uma inteligência artificial a respeito das coisas que vão fazer com a sua vida”, disse.

Bruzzi também desmontou a ideia de que a IA seria uma ferramenta neutra. Retomando um argumento central do seu livro, defendeu que “todo algoritmo é político” — e que os datasets que alimentam essas inteligências foram construídos a partir de vozes majoritárias, de países centrais, carregando consigo visões de mundo que apagam saberes minoritários e conhecimentos historicamente excluídos.

A conversa ganhou uma dimensão simbólica quando o mediador apontou para a própria presença do público na FLAP. Todos os livros expostos poderiam ser comprados online. As palestras poderiam ser assistidas pelo YouTube. E ainda assim as pessoas saíram de casa, trouxeram filhos, avós e pets. Para Bruzzi, isso não é trivial. “As pessoas decidiram vir aqui presencialmente”, observou. “Como uma espécie de resistência — um ato de resistência cultural, um ato de resistência humana contra essa solidão dos aparelhos.” É precisamente o que as máquinas não conseguem fazer — hesitar, duvidar, se contradizer, tomar um café e cruzar com alguém no corredor — que define o que ainda somos.