
O linguista Caetano Galindo e o escritor Sérgio Rodrigues protagonizaram uma conversa sobre os poderes e os limites da língua portuguesa na programação da FLAP deste sábado (25/4). Em painel mediado por Cezar Tridapalli, o linguista e o escritor argumentaram que o país vive um momento de virada na forma como entende e reivindica o português brasileiro — e que essa virada tem tanto a ver com cultura quanto com política.
O diagnóstico de Sérgio Rodrigues foi direto: durante séculos, o Brasil viveu refém da ideia de que fala uma língua que não lhe pertence. “A cultura brasileira oficial sempre vendeu a ideia de que nós somos falantes de segunda ordem, de uma língua cujas regras são definidas em outro lugar que não aqui”, afirmou. Para ele, esse senso comum — de que os brasileiros falam sua própria língua “de maneira errada” — é uma das heranças mais duradouras do processo de colonização, e sua superação equivale a um grito de independência que chegou com dois séculos de atraso.
Galindo concordou e situou o momento atual como um ponto de inflexão. Segundo ele, o Brasil está finalmente amadurecendo para discutir sua relação com o idioma sem buscar validação externa. “A gente está chegando nesse momento de permitir essa discussão, de fazer essa discussão sem olhar para fora, sem sentir um tão grande complexo de inferioridade que nos caracterizou durante tanto tempo”, disse. Ele citou o professor de linguística e língua portuguesa Carlos Alberto Faraco, que encerrou uma conferência recente sobre o português com uma conclusão reveladora: “É a hora de cada um cuidar de si.”
A conversa também tocou em uma tensão que vai além da linguística: a politização do debate sobre a língua. Rodrigues identificou uma corrente que defende a submissão do português brasileiro a normas canônicas lusitanas como condição para a qualidade cultural e educacional do país. “Há quem trate a linguística moderna como uma forma de corrupção do entendimento sobre o que é uma língua”, observou, avaliando que o acirramento do debate é, paradoxalmente, um sinal de que as percepções estão mudando.
Ao examinar quem, na prática, defende o purismo linguístico hoje, Galindo concluiu que o adversário é menos sólido do que parece. “Eu queria brigar com um conservador de verdade. Eu queria alguém sólido que viesse me falar de um repertório contra as nossas ideias. E eles não têm”, disse. Para ele, o debate atual coloca quem pesquisa e pensa a língua com rigor numa posição de “extrema facilidade argumentativa” — porque o outro lado, em grande medida, está “discutindo com fantasmas”.
Sobre a questão de chamar o que se fala no Brasil de “brasileiro” — nome defendido por alguns, recusado por outros —, Rodrigues foi cuidadoso. “Não é tão relevante se a gente vai continuar chamando de português, português brasileiro”, ponderou. O que considera urgente é outra coisa: uma atualização profunda do que se ensina como norma culta nas escolas, de modo a tornar o idioma “menos alienígena” para quem aprende. Galindo somou ao argumento a dimensão política da nomenclatura: “Dar nome a uma língua é tudo menos uma questão de ordem linguística.”
Os dois concordaram que o português falado no Brasil já se afastou tanto do lusitano — em vocabulário, morfologia, sintaxe e pronomes — que pode, tecnicamente, ser caracterizado como outra língua. Mas também concordaram que essa não é a questão central. O que está em jogo, disseram, é a consciência de que língua é aquilo que um povo fala — e o Brasil fala a sua há tempo suficiente para parar de pedir licença.





