Advogados falam a estudantes sobre bullying, igualdade racial e direitos humanos

Nesta quarta-feira (10/10), 174 estudantes do oitavo e nono anos da Escola Estadual Aline Picheth, de Curitiba, assistiram às palestras sobre bullying, igualdade racial e direitos humanos no auditório da OAB Paraná.

A ação é fruto de uma parceria entre a escola, dirigida pela professora Alessandra Cristina Perez, e a Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, presidida pelo advogado Anderson Rodrigues Ferreira. Ao receber o grupo da manhã, composto por 104 estudantes, Ferreira lembrou a todos que a OAB é “a casa da cidadania”. À tarde outros 70 estudantes do colégio da mesma faixa-etária, de 13 a 16 anos, ouviram as palestras.

O primeiro a palestrar foi o advogado Alexandre Saldanha, que falou de sua experiência pessoal como vítima de bullying. “Sei que parece engraçado para os demais, mas quem vive a situação como vítima se sente um lixo”, afirmou listando uma série de práticas que se configuram como bullying. “Eu não queria comer, nem socializar, não queria nada. Tinha tanto medo de ser vítima, que nem prestava mais atenção na sala de aula”, contou.

Bullying

Saldanha destacou que depressão e automutilação são efeitos do bullying e que quem é exposto a ele por muito tempo fica também violento. “Algumas situações enquandram-se ainda como assédio moral, sexual e furto. E o bullying não se restringe aos muros da escola, está também nos meios digitais”, lembrou.
Saldanha fez recomendações para as vítimas de bullying, incentivando-as a pedir ajuda e, nos casos em que são alvos de vídeos humilhantes, ofensas disseminadas por meios digitais, fazer um “print” da tela. “É possível ir ao cartório e fazer uma ata notarial, que dá muita força à prova”, acrescentou.

O advogado tratou ainda de desfazer a noção de que não há maiores consequência para os praticantes de bullying. “Quem pratica bullying afeta também os próprios pais, que podem responder e pagar indenização pelos danos materiais causados. O próprio adolescente pode responder na Vara da Infância e da Adolescência”, alertou.
O caminhou, recomendou, é apostarmos todos na empatia. “Coloquem-se sempre no lugar do outro. Também faço um apelo para que ajudem as pessoas isoladas a fazer amizades”. Ao fim de sua apresentação, Saldanha apresentou um vídeo com o poema. “Que me deixem passar”, de Lêdo Ivo.

Direitos humanos

O advogado Fernando César Domingues começou abriu sua apresentação com uma apresentação: “quem acha que direitos humanos é para humanos direitos?”. Diante do silêncio do grupo, Domingos ressaltou que tais direitos, surgidos na Revolução Inglesa, servem para todos os humanos se defenderam dos arbítrios do Estado. “Temos ainda os direitos fundamentais. Eles garantem a vida, a propriedade, o direito de reunião e a livre expressão”, explicou.

Domingues ressaltou que a liberdade de expressão, direito fundamental, não pode servir como pretexto para que outros direitos sejam desrespeitados. “A prática de bullying e de racismo não tem respaldo na livre expressão”, afirmou.

Racismo

Nei Luiz Moreira de Freitas, presidente da Comissão da Verdade da Escravidão Negra, tratou de racismo e de escravidão, assuntos que, ressaltou, “precisam ser muito discutidos”. O advogado fez um resgate histórico lembrando que a escravidão é prática registrada desde a Idade Antiga. “Nas Américas, os homens negros eram coisas, objetos vendidos e emprestados. Essa prática ocorreu acobertada pela Igreja. Mas sempre houve questionamentos”, recordou.

Depois de apresentar um vídeo mostrando situações em que as pessoas são rotuladas pela roupa que vestem, ele discorreu sobre o mal do racismo. “Temos de derrubar preconceitos. A cidadania tem de ser plena para todos. Os negros lutaram pela liberdade, agora ainda é preciso lutar pela igualdade”, ressaltou.

Freitas lembrou ainda que pela Constituição Federal, que acaba de completar 30 anos, o racismo é crime inafiançável e imprescritível. “Qualquer manifestação racista, sofrida ou testemunhada, precisa ser denunciada. O assunto tem de ser discutido para que possamos conviver numa sociedade igualitária”, ressaltou.

À tarde foi a vez de Silvana Niemczewski, presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB Paraná, falar aos estudantes sobre o racismo. A advogada compartilhou com os estudantes relatos dolorosos ouvidos durante as ações promovidas por sua comissão, como o da criança que tomou banho com água sanitária para “embranquecer”.

OAB Paraná

Pela manhã, coube ao advogado Giovani Cássio Piovesan, do Tribunal de Ética e Disciplina (TED) da OAB Paraná falar aos estudantes sobre a atuação OAB na vida pública. Piovesan destacou que a atuação é voltada para a advocacia e para a sociedade. “A missão de um advogado é defender direitos e isso dá trabalho. Garantir os direitos dos clientes e da sociedade em geral é algo difícil, mas muito satisfatório”, afirmou.  À tarde, a mensagem sobre o papel da OAB em sua atuação para a advocacia e para a sociedade coube à secretária-geral Marilena Winter, que presidiu os trabalhos da sessão vespertina. “A OAB se preocupa com o futuro. E o futuro são vocês. Que vocês possam sempre viver sob a democracia”, afirmou ela.

Ao fim das palestras, Ferreira agradeceu a atenção dos estudantes, incentivando-os a se dedicarem aos estudos e a refletirem sobre seu papel na sociedade. Aclamada pelo grupo, a professora Indianara Schotka, de História, agradeceu a OAB Paraná pela oportunidade e plantar a semente da cidadania. “Esperamos que essa informação faça diferença em suas vidas para que um dia tenhamos um mundo mais igualitário. Os temas aqui apresentados serão discutidos também em sala, para maior reflexão”, disse ela.

Instada pelos estudantes, a professora Patricia Gabardo, de Geografia, também tomou a palavra para uma mensagem breve: “O que mais esperamos de vocês é que sejam bons cidadãos. Que respeitam os colegas, sejam como eles forem.”