Mesa da Flap aborda “Visita ao pai”, nova incursão de Cristóvão Tezza às relações familiares

O escritor Cristóvão Tezza trouze para a Flap, festa literária realizada no Museu Oscar Niemeyer, uma conversa sobre “Visita ao pai”, seu novo livro. A obra, que trata de memória, pertencimento e relações familiares, foi tema de uma das mesas da tarde deste domingo, 26 de abril. Autor de alguns dos romances mais relevantes da literatura brasileira contemporânea e vencedor dos prestigiados prêmios Jabuti, São Paulo de Literatura e Portugal Telecom, Tezza compartilhou reflexões sobre o processo de escrita e sobre a construção narrativa de uma obra marcada pelo olhar íntimo sobre as relações entre pais e filhos, os afetos silenciosos e as permanências que moldam a experiência humana.

O mediador Carlos Machado, traçou uma linha do tempo apontando o aprofundamento progressivo das narrativas do autor. “O ´O filho eterno´ e ´Visita ao pai´ são exemplos de uma outra reforma narrativa”, disse. Tezza reconheceu que seus primeiros livros eram fruto de um ideário e que só mais tarde passou para o romance. Mas sou da família dos escritores que escrevem para investigar o que eles ainda não sabem. Há quem escreva na luz. Para mim, é um tatear de questões sobre as quais tenho apenas uma vaga ideia. A escrita é que me dá dimensão. Foi assim com ´O filho eterno´”, conta.

Viagem à própria história

Tezza conta que não se falava em autoficção, mas passados 20 anos do nascimento do primeiro filho, pôde ver a si mesmo como personagem. Assim o que tinha sido pensado como ensaio se converteu em romance. O caso de ´Visita ao pai´ foi diferente. O personagem observado é seu pai, que, nas palavras do autor, teve a pachorra de guardar rascunhos ou cópias de cartas — e até de telegramas — que escreveu ao longo da vida. “São 26 livros, sem nada interessante: eram cobranças, fatos familiares. Como meu pai morreu quando eu tinha 6 anos, consegui analisar tudo com distanciamento, inclusive quanto a questões políticas, nacionalização do ensino. Eu quis escrever um livro em que a voz do meu pai estivesse presente. Ele teve uma vida absolutamente comum, com uma determinação absolutamente incomum para escrever cartas”, observou.

O livro, na visão de Tezza, usa recursos romanescos, mas faz uma viagem à história do Brasil na época da formação de uma classe média e de uma transformação de um Brasil predominantemente rural para um país mais urbano. Tezza considera que se tivesse optado por um romance histórico clássico, o pai seria apagado. “Eu quis manter a voz dele. Para mim é um segundo acerto de contas com a minha própria história”, resumiu.

Machado apontou passagens bem humoradas da narrativa e indagou o autor sobre um jogo literário que chamou de “obsessão por pormenores”. O moderador também destacou o quanto o livro revela sobre a mãe do escritor. Tezza explicou que a mãe, depois do casamento, em 1944, também passou a escrever e a guardar cartas. “Era uma pessoa fantástica, que escrevia muito bem, tinha domínio da palavra. Ela começou a ocupar espaço na história. Se assomou no livro, que afinal é uma investigação sobre família”.

Promovida pela OAB Paraná, a primeira edição da FLAP foi aberta no sábado, 25/4. Informações e registros podem ser encontrados no perfil oficial da festa no Instagram: @flap_se.

Crédito de imagem: Antônio More