“Nunca parto de um tema; é sempre de um trauma, um sentimento”, conta Marilene Felinto sobre sua própria escrita em mesa da Flap

A Festa Literária da Advocacia Paranaense (Flap) realizada no Museu Oscar Niemeyer (MON) contou na tarde deste domingo (26/4) com a mesa “As mulheres de Marilene Felinto”, uma conversa sobre as personagens femininas que atravessam a produção literária da autora. O mediador Guilherme Shibata, um dos curadores da Flap, contou ao público que fazia questão absoluta da presença da escritora na festa. À plateia lotada, ele recomendou veementemente a leitura de “Corsária”, obra de Marilene Felinto, ao público que esteve acompanhando atentamente a conversa. “É uma maravilha de romance para entender o Brasil. A história é quase eletricidade”, pontuou ele.

Reconhecida por uma escrita intensa, crítica e profundamente marcada por questões de identidade, pertencimento e deslocamento, Marilene Felinto compartilhou reflexões sobre sua trajetória literária e sobre a construção de mulheres fortes, complexas e muitas vezes atravessadas por conflitos sociais, afetivos e existenciais. Logo no início da mesa, a autora recordou uma experiência de leitura com mulheres privadas de liberdade no Paraná. “Foi um encontro on-line, mas com imensa interação. Em vários momentos fiquei tão emocionada que eu queria atravessar a tela para uma solidariedade inútil – bem sei. Foi a troca mais tocante que tive com um público leitor”, disse.

Shibata aproveitou a deixa para lembrar que os muitos participantes da Flap doaram livros para o projeto “Ler Juntos”, coordenado pela OAB Paraná em presídios do estado.

A conversa, na sequência, enfocou um trecho de “Corsária”. Shibata instigou a autora a dizer de onde surgiu a história. “Esse livro não é sobre a morte da minha mãe, mas foi escrito a partir dela. Eu escrevo sobre a minha história, obviamente com viés fictício. O que mais marcou minha vida, desde menina, foi a migração do Nordeste para São Paulo. Essa perda da minha cidade natal, Recife, aos 11 anos me deixou uma fratura. Reconstruir essa fratura foi o que me levou a escrever. Brinco até que o primeiro idioma que aprendi foi a língua paulista. Para fugir da discriminação na escola, ficávamos treinando o sotaque paulista, eu e meus irmãos. Ou seja, nunca parto de um tema; é sempre de um trauma, um sentimento”, explicou.

Na menção à obra “As mulheres de Tijucopapo”, a conversa explorou a luta contra as injustiças sociais. O mediador apontou a coragem da autora no relato. Ela corrigiu: “não é preciso coragem; é preciso que haja uma necessidade”. A mesa tratou ainda das traduções para os mercados estrangeiros. “Na década de 90 foram muitas traduções, cheguei a passar um mês em Berkeley, na Universidade da Califórnia”, contou ela, explicando as traduções agora estão mais escassas.

Promovida pela OAB Paraná, a primeira edição da Flap foi aberta no sábado, 25/4, segue até a noite de domingo. A programação completa pode ser acompanhada no perfil oficial da festa no Instagram: @flap_se.

Crédito de imagem: Antônio More