Pedro Doria: crise ética do Brasil não está resolvida — e instituições como a OAB têm um papel central em reconstruir o que quebrou

Jornalista há 32 anos, fundador do Meio, colunista de O Globo e da CBN e autor de oito livros, Pedro Doria chegou ao I Congresso de Ética da OAB Paraná com um olhar que vai além do Direito. Conhecido por escrever sobre tecnologia e política — dois temas que, como ele mesmo diz, viraram a mesma coisa a partir de 2016 —, ele trouxe ao evento uma leitura crítica sobre democracia, identidade nacional e o papel das instituições num país que, na sua avaliação, ainda não resolveu seus problemas éticos mais profundos. Antes de subir ao palco, conversou com a Comunicação da OAB-PR.

Estamos num evento sobre ética na advocacia, mas você tem um olhar mais amplo sobre o tema. Nesse contexto de sociedade tão líquida e em transformação intensa, o conceito de ética muda — ou ainda é o mesmo de sempre?

Qualquer conceito de ética, no fim das contas, nasce da compreensão de que nós somos seres humanos. A gente sente fome, sente dor, sente a angústia de não poder sair de um lugar — então entende o que é o direito de ir e vir. Toda essa noção nasce daí: vamos fazer um pacto de que, se eu sinto todas essas coisas e você sente as mesmas, vamos tentar não infringir naquilo que dói? Vamos tentar um pacto de mútuo respeito? A base da ética é essa. Muda a tecnologia, muda o sistema de governo — ética é ética.

A advocacia tem um papel decisivo na cultura ética da sociedade — não só no sistema judiciário, mas nas relações sociais de modo geral?

Deve ter. Tanto quando a gente fala de magistrados quanto quando fala de advogados, estamos falando daquelas pessoas dentro da sociedade que têm um papel muito específico: o cuidado para que o Estado democrático de direito fique de pé, para que sejamos todos tratados como cidadãos com rigorosamente os mesmos direitos. Isso é a base de uma democracia liberal. Você tira do jogo advogados ou magistrados — porque no fim das contas são duas pontas de um mesmo sistema, e esse sistema só funciona com as duas intactas — e não é possível ter uma sociedade onde existe ética. Tudo depende muito desses dois braços funcionando normalmente.

No evento, qual será a sua abordagem? O que você espera despertar no público da advocacia?

A gente está vivendo uma crise no Brasil — não só no Brasil, isso está acontecendo em todas as democracias ocidentais. E é uma crise que tem por origem o fato de que as pessoas deixaram de se perceber como um mesmo povo. Brasileiros não olham mais uns para os outros e se veem como participantes de um mesmo jogo democrático. Isso acontece porque a gente não compartilha mais a mesma ideia do que é ser brasileiro. É como se houvesse dois ou mais conceitos diferentes rodando na cabeça das pessoas. E se a gente não tem mais um acordo a respeito do que é ser de um determinado lugar, a ideia de que somos um só povo se desmonta. Esse é um dos pilares fundamentais que sustenta a democracia — e esse pilar quebrou. A gente precisa consertar. E eu acho que instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil têm um papel nisso.

De que forma? Existem mecanismos ou ações concretas que podem ajudar?

Isso é conversa. São conversas institucionais, são conversas um a um — mas são conversas entre as pessoas. A gente precisa voltar a conversar. Eu sei que você estava esperando uma resposta mais “mecanismo XYZ”, um decreto de lei, uma ação específica. Mas você só remedia a falta de diálogo com diálogo. É conversa. Com propósito, claro — a conversa precisa ter propósito.

Apesar dessa crise, as instituições brasileiras passaram por alguns testes recentes. Como você avalia a forma como reagiram aos ataques à democracia?

Eu gostaria de dar uma resposta mais otimista, mas não sou particularmente otimista. Não aconteceu um golpe de Estado — e poderia ter acontecido. Foi tentado. O risco não passou. Na história do Brasil, tivemos sete golpes militares bem-sucedidos — 1889, 1930, 1937, 1945, 1955, 1964, 1968 — além de várias tentativas frustradas antes de 1964. A ilusão de que um golpe fracassou e está tudo bem é uma ilusão enquanto o país está dividido. A sociedade está convencida de que houve uma tentativa de golpe? Não está. Está convencida de que a última eleição presidencial foi justa e limpa? Não está. As coisas não estão resolvidas. E enquanto isso, estamos provavelmente no meio do maior escândalo do sistema bancário na história do país — o caso do Banco Master, estimado em 47 bilhões de reais, maior do que o próprio Petrolão. Com gente comprada de todos os grupos políticos, de todas as estruturas da democracia brasileira. O problema ético do Brasil não está resolvido porque julgamos golpistas e porque, pela primeira vez, golpistas estão presos — que bom que aconteceu. Mas não podemos viver a ilusão de que estamos longe de um novo golpe, nem de que a república está resolvida. Ela não está.