“O dinheiro não pode ser o motor da nossa atividade”, diz Rodrigo Rios no De frente com a CAI

 

O secretário-geral da OAB Paraná, Rodrigo Sánchez Rios, participou nessa quinta-feira (22/8) do De Frente com CAI, evento organizado pela Comissão de Advocacia Iniciante (CAI) da OAB Paraná, que encerrou a Semana da Advocacia Iniciante.  Participaram da mesa de abertura, o presidente da CAI, Wagner Maurício Pereira, a diretora de projetos da comissão, Brenda Maria Cristina Chagas e a conselheira seccional e presidente da CAI na gestão anterior, Giugliana Carta.

Rios começou relembrando as referências que teve na infância e na adolescência. “A primeira imagem que eu tenho, aos 9 anos, no interior da Amazônia peruana é da minha mãe, que sentava ao fim do dia e contava a história do Jean Valjean, dos Miseráveis”, relembra o advogado. “Em casa, dinheiro curto, mas ela criava um mundo de personagens e lugares que eu almejava conhecer. Isso atiçou minha curiosidade por histórias, por pessoas”, contou. Aos 11 anos, um fato marcante para ele foi passar a ter uma biblioteca em casa.

Na adolescência, Rios sonhava ser marinheiro mercantil. Quando tinha 15 anos, ficou arrasado ao fazer um teste vocacional e ouvir da psicóloga que não tinha habilidade para essa profissão. “No fundo, o que você quer é viajar, será um grande professor de história, ou advogado ou jornalista”, disse a profissional. “Advogado?!”, pensou o jovem. A imagem que tinha deles não atraía, eram pessoas que estavam sempre de preto, escrevendo à máquina.

Com o tempo, viu que era direito de que deveria estudar, mas ao ingressar na faculdade, ainda não almejava ser advogado. Seu sonho era ser cineasta. Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), conheceu Sansão José Loureiro, professor de Direito Constitucional que lhe deu apoio durante a carreira e foi uma espécie de padrinho profissional.

Logo de início, o professor Sansão, como Rios se refere a ele, lhe perguntou o que já tinha lido, e ouviu como resposta uma série de autores brasileiros e europeus. O mestre então lhe trouxe uma pilha de livros peruanos, inaugurando o que seria uma longa amizade. “Esse professor se tornou um referencial na minha vida. Ninguém consegue as coisas sozinho. Eu devo muito ao professor Sansão”, disse Rios com gratidão.

Ao longo dos anos de faculdade, o professor perguntava ao jovem o que queria fazer após se formar e ele dizia que queria ser cineasta. Sansão o incentivava: “Faça um roteiro, vamos fazer um filme”. E se Rios insistisse nessa ideia, o professor prometeu ajudá-lo com a passagem para que fosse para a Europa.

A vida na Itália

E assim foi, após a formatura, Rodrigo Sánchez Rios viajou para a Itália, onde começou a fazer um curso de direito administrativo até começar o curso de cinema e foi procurar emprego. Começou trabalhando em um parque de diversões, depois foi um restaurante, onde foi de lavador de pratos a cozinheiro.

Quando podia, ia ao cinema de manhã. Conheceu todos os cinemas de Roma e descobriu onde era a casa do cineasta Frederico Fellini. “Eu ficava lá na frente, esperando que ele me atropelasse ou precisasse de ajuda para carregar as malas”, relembra o advogado.

O jovem sonhador conheceu um professor colombiano que lhe deu uma pista ao dizer: “Você vai gostar de direito penal, porque mexe com o drama humano. Você é um sujeito que escuta e as pessoas vão ter confiança em você”. Ele então conseguiu uma bolsa na Università Degli Studi Di Roma Tre, La Sapienza, e estudou o tema. “Não sei se eu diria que tenho vocação para o direito penal, eu encontrei o direito penal”, ponderou o advogado.

De volta ao Brasil

Após terminar os estudos, ele recebeu um convite de um amigo para abrir uma livraria e ser feliz na Europa. Mas ele precisava voltar, o professor Sansão, seu “pai intelectual” estava aqui. De volta ao país, chegou com a mala cheia de livros, o doutorado no currículo e 50 dólares. Conseguiu trabalho como professor universitário e contou com o apoio do mestre para se manter até que as aulas começassem.

Sobre a advocacia, ficava pensando como fazer para conseguir clientes. Começou como advogado dativo e seguiu nessa alternativa por 12 anos. Aos poucos, clientes começaram a procura-lo. A então advogada Rosana Fachin (hoje desembargadora do TJ-PR) atendia a Volvo na área civil e o indicou para um caso de penal. Ele, que na época não dirigia, tomou um ônibus e foi até a empresa fazer o atendimento. Ele relembra que cobrou um valor que seria como R$ 1 mil hoje e o cliente pediu para pagar em parcelas de R$ 50.

Outras situações curiosas aconteceram no início de carreira, como ir ao Sítio Cercado fazer uma cobrança e ouvir: “Eu posso pagar R$ 60 ou o senhor pode levar essa galinha”, relembrou com bom-humor. Ele passou por situações que muitos iniciantes hoje também passam, de entrar no cheque especial, de ter aquela ansiedade por receber para pagar as contas básicas, o aluguel da sala, condomínio e tentar manter uma secretária.

Mas, com o tempo, a pasta de dativos foi ficando parecida com a pasta daqueles que o procuravam. Rios percebeu que a atividade de docência poderia ser levada em paralelo com a advocacia. E logo conseguiria comprar sua primeira casa, um sobradinho. “O dinheiro não pode ser o motor da nossa atividade, é uma consequência”, refletiu o secretário-geral da OAB Paraná.

Rios tem até hoje em seu escritório sua primeira mesa, aquela onde poderia fazer qualquer coisa, com a qual começou no tempo em que o escritório era uma salinha pequena e se fazia café no banheiro. “Com essa mesa, se pode fazer milagre”, falou Rodrigo Sánchez Rios, com um misto de carinho e nostalgia.

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