Painel debate os desafios das mulheres na advocacia

Ana Cláudia Pirajá Bandeira, vice-presidente da OAB Maringá, abriu os trabalhos vespertinos deste sábado na Conferência Estadual da Mulher Advogada. “Queremos conquistar espaços, mas temos dificuldade para entender que isso se conquista com sacrifícios, esforço e metas. As que aqui estamos sabem disso. Esse fim de semana entrará para a história da Ordem. Não precisamos da força bruta para conquistar espaços, mas da delicadeza e da sabedoria inerentes a toda a mulher. Nascemos num tempo de direitos civis femininos já avançados. Não temos mais desculpa para não lutar pela ocupação da metade da mesa. Não temos mais desculpas para não lutar por um mundo mais justo”, declarou Ana Paula.

Em seguida, Rafaela Lanzoni Bueno, delegada da Caixa de Assistência dos Advogados e presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB Assis Chateaubrind, apresentou o painel “Mulheres na advocacia: enfrentando desafios, construindo soluções”. O debate foi moderado pelo conselheiro federal e ex-presidente da OAB Paraná Juliano Breda e teve como relatora Meirielen do Rocio Rigon, vice-presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB Apucarana.

Pesquisa

Patrícia Tuma Martins Bertolin, doutora em Direito do Trabalho pela USP e professora da Universidade Mackenzie, foi a primeira painelista a falar, relatando dados de seu estudo sobre a participação das mulheres nas 20 maiores bancas de advocacia de São Paulo. “Classifiquei os escritórios em três gerações. A primeira são escritórios mais antigos, clássicos. A segunda geração é a que incorporou a polêmica figura dos advogados associados. Na terceira são escritórios que surgiram nos anos 90”, explicou. Ela surpreendeu os presentes ao apontar que a ascensão feminina é superior à masculina nos escritórios de terceira geração, mas pontuou: isso ocorre porque elas se submetem à “flexibilidade” em horários menos convencionais. O home office existe, mas as mulheres que optam por esse modelo são consideradas menos comprometidas.

Um sócio-fundador de uma grande banca me disse que é irrelevante se o profissional usa saia ou calça, desde que “seja bom”. Porém ele completou, afirmando: o “problema” é que as mulheres se casam e têm filhos. Segundo Patrícia, esse empregador descreveu ter conhecido uma excelente advogada, “uma máquina”, mas que pediu demissão depois de o filho ter reagido mal à ausência dela em seu aniversário.

“O fato é que o mercado de trabalho na advocacia não vê a maternidade com bons olhos porque isso impede a dedicação total ao trabalho. O padrão masculino de carreira é eliminar a maternidade, o que indica que a divisão sexual do trabalho ainda impede a igualdade de oportunidades. Além disso, a culpa apareceu no depoimento de 100% das advogadas ouvidas na minha pesquisa. As mulheres se sentem eternamente devedoras e culpadas, tanto no campo profissional quanto na maternidade”, destacou. “Uma delas me disse que morria de pena dos que abandonam a advocacia por motivos diversos. Ela declarou: ´Amo muito minha profissão, mas ela machuca demais´. Essa fala, apesar do tempo passado, ainda me impacta bastante”, relatou.

Desafios

“A proposta aqui é também construir soluções. Precisamos encorajar uma à outra. Os processos de mentoria nos fazem observar o quanto as mulheres não confiam em si mesmas. É isso que precisa mudar na busca da paridade”, afirmou Luciana Kishino de Souza, advogada mentora no Paraná do grupo Women in Law Mentoring Brasil.

A advogada Alessandra Lucchese, fundadora do Women in Law Mentoring Brasil, e diretora no Rio Grande do Sul do Instituto Brasileiro de Governança Trabalhista, destacou que o problema da equiparação feminina no mercado de trabalho não é só do Brasil, mas mundial. “Há um case de uma empresa aqui do Paraná, adquirida por uma multinacional francesa, que começou a fazer um fantástico trabalho aqui em termos de equiparação. O CEO pediu que o ritmo fosse reduzido para evitar problemas na França, onde as mulheres da empresa também recebiam, em média, 30% do que recebiam seus pares homens”, contou.

Auto-boicote

Para Alessandra, a mentalidade que se vê no mercado de trabalho nasce na infância, quando incentivamos os meninos à ousadia e as meninas ao recato. “As mulheres se exigem mais, têm as melhores notas. Mas, pensemos na advocacia, quantas ousam de cara pedir bons honorários? Os homens fazem isso sem problema, pois são treinados a arriscar desde pequenos.”, comparou.

Queremos capacitar as meninas a pensar no que querem. E, se quiserem ser líderes, que sejam. “Digo para minhas mentoradas: sentem nos lugares principais. Se perguntarem se tem café, diga que também quer”, disse, arrancando risos da plateia. “Ou nos ajudamos ou vamos continuar nos prejudicando. É preciso que haja sororidade”, destacou.

“É impressionante como as mulheres não reconhecem suas capacidades. Esperam ser convidadas. Temos que sentar e ocupar nosso lugar, nos desafiar o tempo todo. É preciso ter um inventário de realizações para listar sempre que quisermos”, recomendou Luciana.

Martírio

“Há outro boicote que começa na infância. Dizemos às crianças que não podemos ficar com elas porque temos de trabalhar. Isso nos coloca na posição de mártires. Prestando atenção nisso, passei a dizer à minha filha: ´Olha, a mamãe trabalha porque gosta, vai ser assim com você também´. Temos de mudar de mentalidade”, destacou Alessandra. “Queremos ser supermães, ir à academia três vezes por semana, ter as unhas feitas e ser superprofissionais. Achamos que só nós sabemos cuidar dos nossos filhos. Isso tudo se coloca contra nós”, apontou.

A advogada gaúcha disse ainda que as mulheres reportam com frequência convites para reuniões e confraternizações em locais em que não se sentem à vontade, como casas noturnas. “Digo às mentoradas que elas devem reagir a isso. A melhor solução é perguntar: ´Estão querendo que eu não vá? Nesse local eu não vou´”, aconselhou.

Alessandra exibiu dados dando conta que só 5% das empresas do mundo têm mulheres na presidência. Em 45% delas, não há mulheres na diretoria. No mundo todo, as executivas, no topo das hierarquias, recebem salários 6% menores. “O lado bom é que 60% das mentoradas que passam pela Women in Law Mentoring avançam na carreira e muitas se recolocam graças ao trabalho da organização. Nossos encontros costumam ser mentais e temos também muitos eventos. Convidamos todas a conhecer o nosso trabalho e a se associar”, frisou.

Simbolismo

O mediador Juliano Breda falou sobre o avanço da agenda feminina na Ordem dos Advogados nos últimos anos. “E a OAB é um reflexo da sociedade”, apontou. Ao comentar sobre o tratamento do tema em sua gestão, ele destacou a importância de atos simbólicos. “Claro que não podem ser adotados por razões midiáticas; precisam ser fruto de convicções. Um desses atos foi a decisão de imprimir uma versão feminina do adesivo ´consulte um advogado´. Isso gerou polêmica. Outro ato simbólico foi a escolha de uma mulher — Priscilla Placha Sá — para presidir a Comissão de Direito Criminal, um setor em que a presença feminina ainda é bastante restrita”, mencionou. Breda também fez referências ao problema da depressão, que vitima as mulheres de forma ainda mais intensa.

Leia também:

A vida em sociedade só tem alguma chance se vencermos o individualismo

“Quando as condições são justas, as mulheres conquistam espaço”

Enfrentamento da violência de gênero é tema discutido na Conferência Estadual da Mulher Advogada

Painel debate participação feminina na vida pública

“Em briga de marido e mulher se mete a colher, sim”, afirma Fernanda Marinela

“O Brasil é medalha de ouro no combate à corrupção”, diz Eliane Cantanhêde

“O espaço do feminino no mundo é transformador”

“Nossa causa não é nossa; nossa causa é da humanidade”